O Desafio de Ser Mulher no Mercado de Trabalho
Assessoria de Imprensa | Michelle Raeder


Desde nova as minhas preferências foram por coisas ditas “masculinas”, como carro e futebol, por exemplo. Sempre me interessei por esses universos que são dominados por meninos, e que na maioria das vezes, não aceitam que intrusas ingressem neles.

Mas, como sou teimosa, não deixei de me interessar e de fazer parte desse mundo apenas por ser mulher. Sempre que entrava numa discussão sobre futebol, por exemplo, ouvia comentários: “caraca, mas você conhece mesmo de futebol, né?”, mas nunca ouvi esse comentário quando era um homem que falava sobre o assunto.

A vida foi passando e ingressei no mercado de trabalho. No meu primeiro emprego formal, fui vítima de assédio sexual de um funcionário muito antigo da empresa, eu tinha apenas 15 anos, e quando tomei coragem de denunciar (na realidade foi a minha mãe quem fez a denúncia) ninguém de lá acreditou em mim e fui demitida.

Saí da empresa e fui trabalhar em uma multinacional com mais de 1500 funcionários. Fiquei encantada com aquela quantidade de pessoas, mas na primeira semana de trabalho já me deparei com situações constrangedoras. Eu tinha apenas 16 anos, nessa empresa trabalhei no departamento de Recursos Humanos, portanto, tinha contato direto com todos os funcionários da empresa. Certa vez, estava na linha de produção e ouvi um comentário que me deixou tão constrangida, que não consegui continuar naquele ambiente. Aquela era a segunda “lambada” que a vida me dava para ensinar que precisamos exigir que nos respeitem. E, a partir desse momento, não aceitei mais levar desaforo pra casa.

Nesta empresa trabalhei por seis anos. Depois que fui efetivada fui transferida para o setor de Engenharia e Ferramentaria, fui promovida a secretária desses setores, que eram prioritariamente masculinos. No começo foi estranho, pois eles me tratavam muito bem, mas eu percebia que não sabiam ao certo como me tratar direito. Esse foi o melhor aprendizado que tive na vida, aprendi a me fazer respeitar tanto por homens como por mulheres, e desenvolvi uma relação muito boa com meus colegas de trabalho, que mesmo depois de 14 anos que saí da empresa, ainda tenho algumas amizades de lá.

Seguindo a minha linha de vida de gostar de coisas “masculinas”, quando mudei de emprego ingressei num portal de automóveis, feliz da vida porque iria estagiar na área que estava estudando e pela qual tenho verdadeira paixão: o jornalismo.

Foi uma experiência e tanto, meu editor era um cara excepcional, muito humilde, atencioso, me deu a oportunidade que norteou a minha carreira, se não fosse por ele, tenho certeza que teria sido muito mais difícil ter entrado no mercado de comunicação. Dentro da redação, eu não tinha nenhum problema, mas fora, aí era outro assunto. Naquela época, em 2005, havia poucas mulheres atuando no mercado automotivo, então os homens não nos respeitavam quando queríamos falar sobre os produtos. Íamos para os eventos de testes automotivos e sempre tínhamos que ouvir as piadas:” mulher no volante, perigo constante!”, “ah com a fulana eu não vou não”, “ah deixa que eu faço o teste e você vai no passageiro”, e por aí iam as piadas.

Os anos se passaram, o preconceito com as mulheres no setor diminuiu, mas não acabou. Até hoje ouço amigas comentando sobre essas piadinhas ridículas, que quando rebatemos, ainda somos grossas. Mas somos fortes e nos acostumamos com isso!

Anos se passaram, muitas lambadas aconteceram e fui morar no Nordeste, mais precisamente na Paraíba. Fiquei encantada com a cidade, linda, calma, tudo que eu queria para ser feliz. Ingressei no mercado de trabalho e comecei a viver a cidade, a me relacionar com pessoas do local e descobri que aquela cidade apaixonante era muito machista! Eu não fazia ideia do quanto as pessoas por aqui eram machistas, e não apenas os homens, as mulheres também, o que me deixa ainda mais triste, já que teríamos que ser unidas por sofrermos da mesma dor.

Ainda sigo na luta fazendo valer os meus direitos, o respeito e o meu lugar no mundo. Sempre que presencio ou vejo uma situação desrespeitosa com mulheres me manifesto na hora, não aceito calada. Pode até ser que um dia eu sofra com isso, mas sofrerei com orgulho por nunca ter me omitido perante a falta de respeito.

Pode parecer clichê, mas precisamos estar unidas e atentas umas com as outras, pois assim seremos mais fortes e juntas, quem sabe, conseguiremos mudar um padrão social e consigamos viver com mais paz e sem a necessidade de todos os dias pensarmos em como vamos nos vestir para que no trabalho nos respeitem pelo que somos e não pela roupa que estamos usando.

Michelle Raeder